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Por Dani Costa



poema vivo
(dos escritos de Cartas Secretas Jogadas pela Janela)
 
 
meus pés ficam leves quando observo o mar parado do porto de Vitória. e meus olhos sempre se espantam com as gigantes estruturas metálicas erguidas, desde quando era menina. muito mais que agora. seus ganchos, suas correntes, seus desafios de levantar pesos além do imaginado. tudo é grandioso no porto. os navios me apavoram e me fascinam. como podem entrar no estreito canal com tanta graça e magnitude? a água quase não se mexe. ela balança apenas. é como um homem em toque extremo de gentileza. e quem nasceu, cresceu, viveu nesta cidade sabe que essa coreografia engenhosa dos navios pode ser vista a qualquer momento. é essa a segurança que sinto aqui. algumas coisas nunca mudam. o porto sempre estará lá, com seus braços metálicos e seus caminhos de luz que vão de uma ponta a outra dos gordos barcos, enfeitando a noite em frente ao Palácio. ali, bem no meinho do Centro. onde eu passo todo dia e fico tão feliz.
 
muitas escadas levam à Cidade Alta. aquela cidade que é velha. tem casas velhas, Catedral velha, mas com ar tão novo, tão moderno, tão atual. é o lugar onde as pessoas se movimentam como formigas operárias, se deslocando com agilidade pelas ruas cheias de quadradinhos escorregadios. na minha infância, quando diziam o nome deste bairro, eu imaginava que ficava tão no alto que era como um prédio - bem perto do céu. e é mesmo, nunca estive enganada. dali, quem firmar bem a vista enxerga os pássaros brancos com suas penas acetinadas sobrevoando o porto. é possível ver o dinamismo do centro da Ilha. é possível não sentir vontade de ir embora.
 
meu artista, quero contar-lhe sobre um amor que tive (eu acho) e hoje já não tenho mais. ele durou pouco. eu o comparo ao ar do Centro. não é nobre, agora, mas reside no coração dos descendentes desta cultura. hoje, ele é um amigo que cuida de mim e não permite que nenhum mal me aconteça. tudo é lento e eu não esqueço, de pirracenta e poeta que sou. não esqueço a sinfonia de fadas borboletantes que me cercaram naquele momento. todos riam. eu ria. ele, hum, putz. ele sempre me olhava e ria também, forte, olhos apertados. atenção fixa. eu na tentativa de não entregar os arrepios.
 
mas o atrevimento foi todo meu. entre piscas-piscas e música muito alta, estendi minha mão direita, como princesa donzela que sou. nem tão donzela, creio. assim, ofertei minha mão, que ele beijou prontamente. muitas luzes azuis, não amarelas, porque era assim mesmo. pensei tanta coisa. olhei o rosto. é diferente. é mais velho que eu, um sábio talvez. tem cabelos que eu afagaria, camisa que eu não manteria por muito tempo assim... tem gentileza, postura, acho que muita hombridade. lembrei de Drummond contando dos dentes de Fulana, do sorriso, do tudo dela. seja lá quem ou o quê ela fosse. eu pensei. assim, em fração de segundos pensei tudo. e daí veio essa de fazer dele meu Fulano, meu Mito, minha literatura, minha poesia, meu mundo. dentes refrigerados em boca que não conheço.
 
e o misto de mato com urbano? ele tem disso, coisa campestre com asfalto. que nem morar em prédio, mas correr para a casa de campo ou praia, nos momentos de fuga. até pensei nisso naquele beijo na minha mão. é... pensei como deve ser viver ao lado dele e quando sentir vontade de fugir, continuar ao lado dele, afinal. tudo, porque ele é misto. tem os dois lados que completam alguém. 
 
meu amigo, talvez você diga que ninguém pensa tanta coisa em segundos. eu congelo o meu tempo e me ponho a pensar. eu tenho a manha. Poesia traz um labirinto à cabeça, mas também poderes sobrenaturais para quem a vive. e o meu poder é pensar trezentos trilhões de toneladas de pensamentos por segundo. como os navios gordos. então já expliquei.
 
os dias passaram. uma onda de vontades me afogou. e eu cedi. cedi aos encantos do homem que estava destinado a ser meu grande amigo. a ser minha amada cidade histórica cravada no meu coração. em breve momento tive o corpudo cheirando meu pescoço. e ele admirava o quanto eu deixava de ser menina. fui decidida. um relâmpago cheio de impulsos. ele se desnorteou e me amou daquele jeito indiferente.
 
me estreitei em seu corpo e o deixei que me dividisse em duas - assim, uma puta, porque ele dizia, 'não és menina mais' - pernas para cada lado e sua essência vigiando o momento certo de se expelir em meu interior. sim... naquele corpo me diminuí e o deixei crescer, tornar-se homem grandioso, soberano - ao menos de todos os travesseiros - e o fiz sentir o poder de possuir uma mulher e mingua-la à exaustão, ao cansaço suado e delicioso... e ele dizia, ai, "meu poema vivo..." 
 
por muito tempo ouvi isso. sou o seu poema vivo. sou sua profusão de versos escandalosos. sou o que ele clamou e planejou por alguns meses. sou uma ladeira antiga, de séculos passados, com casarões requintados de paredes muito espessas. ele é meu porto seguro agora. mas antes não era. quando vivíamos de sexo, ele era minha insegurança. ele amava minha carne que eu ofertava. ele amava a minha pouca vergonha, minha reza baixinha, perseguinando-me e agradecendo por tê-lo em meu colo, por tê-lo me sugando cada dia com mais intensidade. ele me fazia ter medo. um pavoroso. de um dia abrir meus olhos e não vê-lo. e ficar então só o pouco do zelo que teve o cuidado de demontrar por mim.
 
é, amigo, nada é mesmo menos fugaz. as coisas são como vapor. elas são quentes e, por assim serem, se evaporam. trepadas são assim. cada coito quente, um pouco do resto da gente se vai. e um dia, não sobra nada. nem um murmúrio. porque o que é quente não dura. nem mesmo morno.
 
anseio te ver, já disse. guardo-te enclausurado em boas lembranças. quando chegar aqui, vou levá-lo ao porto. você verá atletas remando em canoas conjuntas. e verá pescadores preparando suas redes. você terá inspiração. eu ficarei quieta para que te ocupes de muita meditação. eu te aguardo, senhor. pensando que tipo de homem você é. que tipo de homem se revelaria na quentura das coisas que não duram para sempre. pensando em como eu o veria se evaporar diante de mim. 
 


Escrito por Dani Costa às 11h27
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