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Por Dani Costa o peso de cada homem observou que o peso deles era como uma âncora em seus pés a segurando no fundo oceânico, evitando que ela saísse mergulhando e boiando a esmo, sem rumo, sem idéias, sem conhecimento do profundo que a espera. primeiro achou destrutivo, uma amarra que a poda, que a esquece num canto de castigo. depois, sorriu satisfeita com a contastação de que o peso de cada um daqueles homens era a medida de equilíbrio que faltava em seu corpo, sua mente, atitudes e epifanias. há tempos pensava em pedir desculpas por um mau feito com ele. mas, não lhe restou coragem alguma da muita que teve na época quando resolveu sumir. não foi planejado, nem corrido. foi só um momento que era para ser e não para continuar. ela juntou uns livros, a escova de dente, três maçãs da geladeira e foi. nunca ligou, nunca atendeu. nunca respondeu e-mail, nem carta de envelope verde. sumiu, como se jamais tivesse existido entre as paredes daquele apartamento onde, em algumas noites, se refugiava e, entre gemidos e sussurros, dizia gostar muito, mas ainda era melhor que as pessoas não soubessem. ele passou a ser seu peso na consciência. diário e dorido. soube por próximos que se fez de incompreendido e largado, ofendendo todas as mulheres pela desatenção desta única que resolveu não amá-lo. toda a geração de moças nascidas nos anos 1980 foi condenada à solidão nas palavras cuspidas da boca dele, como uma terrível praga que assolaria a humanidade, atingindo as malfeitoras devoradoras de pênis. e esse peso da imagem dele em sua cabeça era essencial. com ele segurava a ansiedade e descobria o limite dos sentimentos nos braços masculinos que eventualmente a enlaçavam. nada podia ser exagerado, sempre um medidor apitava o momento certo de partir ou amanhecer. essa era a âncora para não surtar corações alheios. nem o seu próprio. quando soube que ele a olhava com reprovação pelo canto do olho, ficou puta da vida. nada que fizesse era bom o suficiente. o ar ficava pesado. um arrastado que tornavam lentas as horas. ele olhava, secava sua alma e ela sentia na pele todo o peso paternal que contraria o que deveria ser a natureza humana: pais protegem, não o contrário. mas, tanto acostumou-se que, com os anos, o peso era uma carga leve, de efeito benéfico. ela se propôs a superar o pesado homem de mil olhares tortos todos os dias, o tempo todo. e descobriu sua potência na voz imperativa e nos rascunhos de vida que se transformariam em arte. aquele peso era o protagonista da grande mulher que se tornaria antes da obrigação de ser qualquer coisa. ela se contorcia encolhidinha se protegendo do frio. subia manhosa em meio corpo dele e alegava sentir o pior frio do mundo, mesmo que 17 graus não seja extamente tão gelado assim. ele ria e contava histórias fascinantes sobre o heroísmo de um homem que arrisca a vida. foi um acordo entre os dois: cada noite ele contaria uma história até que ela dormisse. tudo que ele queria é que ela ficasse bem. e dormisse leve e quentinha. ela sabia que todo esse ritual era importante, mas duvidava que as histórias fossem só suas. sempre achou que tudo aquilo era cumprido também em outras camas, em outras noites, tão geladas quanto essa. o peso dele era o oposto de todos os outros. na verdade, não havia o peso dele. ele detestava fazer o coito por cima. gostava do espetáculo da imagem dela bem à sua vista, seja devorando-o sentada num galope, ou de qualquer outra forma em que vê-la nos olhos não fosse difícil. em que apertar sua cintura fosse só um esticar de dedos. não podia, ele não queria ficar em cima. e ela foi achando aquilo uma ausência. o gozo era fácil, mas fazia falta sentir seu arfar vindo do domínio do peso dele sobre o seu corpo. ela queria a medida dele distribuída na medida própria: os pesados braços enroscados nos seus, a barriga reta sobre seu umbigo frágil, as coxas rijas contraindo as coxas brancas dela. esse era o efeito - o peso que a dominaria e a deixaria sem ar, completamente, nos movimentos que a tornaria compacta, espremida, suada, perdida e encontrada na diagonal do colchão. ele não quis saber de nada disso. jurou o melhor dos prazeres com as posições que ela enfeitava para ele. de fato, uma jura bem certa e jamais desistida. até o dia em que, numa despedida de madrugada, na correria dela para pegar o vôo, ele passou a mão em seu rosto. ela esquivou o semblante, as idéias, os atropelos das palavras. ele lamentou aquela partida em dizeres que ela não ouviu, mas sentiu no rosto sob as pontas daqueles dedos inefáveis. aquela tinha sido a viagem da decisão de não mais se compartilhar pesos. nem os que abatem o coração com suas verdades. o peso dele era o que evitava seu medo. e estava guardado nas bochechas dela. e é o ponto de equilíbrio entre o que pode ou não viver. o peso da despedida representa a liberdade que lhe foi dada para amar quem mais quiser. sem restrições. na tarde de domingo o homenzinho registra um febrão danado. corre a ampará-lo com medo de piora. cada susto leva com aquela pele quente, mas não amolece e segue firme na tentativa de curá-lo. faz-se médica, benzedeira, enfermeira. seus braços doem tanto, que evita movê-los desnecessariamente. o peso dele é o amor em toneladas. vem jogado em suas pernas quando chega do trabalho, e a cabecinha bate desajeitada no ventre. é sempre assim e ela sempre fala "ai". o peso dele era uma pluma encaixada nas mãos dela, até hoje serem 14 quilos que embala no colo e passa cinco horas circulando pela casa. o peso dele é registro na sua retina. na sua saudade. no seu discurso, na sua bondade. no seu compromisso com a melhor mulher que tem que ser. o peso de cada homem é o peso que um dia adotou ter.
Escrito por Dani Costa às 00h32 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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