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Por Dani Costa



desaparecidos

assumi os desaparecidos. na verdade, me fizeram assumir. no jornal nunca ouvi dizer de alguém que gosta de escrever sobre quem sumiu. são poucas linhas, texto minúsculo. fica no cantinho da página com a foto da pessoa. nem sei se dá leitura, mas o fato é que muita gente some, tenho uma pilha gigante de cópias de boletins de ocorrência com as mais variadas formas de se perder no mundo. adolescentes, adultos e idosos. as histórias vêm para mim rabiscadas em letras de policiais que, certamente, fizeram o melhor que podiam para entender o sumiço.

quase sempre fico imaginando como foi. e tento revelar o que pode ser importante, porque para quem procura por alguém, aquele pedacinho de jornal com meu textinho é uma esperança. chegar na recepção, deixar o BO, a foto - às vezes a única que possui do desaparecido - e permitir que as pessoas saibam o que aconteceu, é uma exposição. e uma esperança. e eu sou a porta-voz dela com meu texto miudinho.

"ela entrou em uma Parati branca e nunca mais voltou, nem foi vista". isso eu li hoje, no depoimento que um marido deu para o registro do BO. a esposa trabalhava num salão, saiu, entrou no carro de alguém e puf, veio parar na minha coluna. deduzo várias coisas, fantasio até. hoje pensei que ela estava de saco cheio da vida e resolveu ir embora com seu príncipe dono de um automóvel branco - tal como um cavalo branco. prefiro pensar que ela está feliz, que isso foi uma decisão.

a menina de 14 anos é terrível. "já sumiu várias vezes da casa da avó, com quem vive desde bebê. seus pais brigam desde sempre e ela ficou perdida". esse é o resumo. e a linda garota cheia de maquiagem, - a foto é dessas de estúdio meio nubladas - espera-se uma fujona, fica ao lado do assalto com morte, na página de polícia. dava medo ver o sangue de um lado e ela de outro.

em geral, elas somem com namorados e voltam com filhos.

um genro faz apelo, "minha sogra sumiu. ajudem-nos". é uma senhora que, de acordo com relato, não tem "distúrbios mentais" - o que é extremamente comum ver nos BO's - que não foge de ninguém, que não sofre falta de memória. "teve uma crise emocional", conta o outro. foi isso, a dor da emoção atingiu seu coração e ela pegou a estrada. foi embora. quis se curar sozinha. um tempo, ela só quis um tempo. tomara.

o rapaz "catou" uma bicicleta roxa feminina e disse que ia ao supermercado. algum vento o fez mudar de idéia. ou, alguém o encontrou. ou, a bicicleta era mágica e ele saiu voando. há mais de dois anos ele foi ao supermercado e não voltou. e o BO dele vem para cima do meu teclado.

o outro rapaz se arrumou todo, tênis novo, bermuda colorida. foi para o baile zoar com a galera. a família não sabe mais dele. eu só sei que ele está aqui na minha mão. e eu desejo profundamente que esteja bem, pronto para dançar de novo.

a menina da semana passada parecia desolada. essa, ao menos, deixou um bilhete: "na internet sou feliz. não fico só. não me procurem nunca mais". adolescente. sumida. eu te desobedeço sua tonta. porque também fugi aos 16 anos e digo, em pouco tempo dá um vazio. eu ignoro teu bilhete e te procuro. sim e sim.

e se eu quisesse sumir? quase todos os registros que chegam contam de pessoas que saíram de casa e não voltaram. meu ponto de partida seria minha casa? sumiria daqui? eloqüente, vagaria? com a mesma roupa, sem levar nada? como vejo, como acontece, como eles fazem exatamente todos os dias sem deixar rastro, em centenas de lares?

e a mulher que deixou os filhos com a mãe e foi-se. ela voltou? quase nunca me contam. e eu sofro pensando neles. e crio uma fantástica resolução para tudo: eles vieram, abraçaram seus entes, todo mundo se desculpou e a única recordação que sobra é meu texto, aquele pequenininho. com a fotinha. que talvez embale o peixe na peixaria, ou vá para a gaiola do canarinho.

e se eu sumisse acho que diriam: um dia ela estava lá. agora não está mais. simplesmente.

 

 

 



Escrito por Dani Costa às 22h22
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