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Por Dani Costa em um instante I (continua embaixo) o sinal fechou. vermelho. em frente ao instituto dos cegos. o alarme disparou para travessia. ela esticou a perna, mas zapt!, nem inteirou o passo. um carro em alta velocidade lhe arrancou o fôlego. um vento cheio de fumaça apavorou os sentidos. as pessoas em volta correram, os que esperavam ônibus no ponto bem em frente se juntaram e ficaram olhando. se sua audição tivesse falhado, não teria segurado o passo e seria atropelada. um instante apenas, menos de um segundo, e tudo teria acabado. era noite de sábado, um amigo a esperava perto da ponte, na Praia do Canto. se arrumou apressada, um vestidinho típico das mulheres litorâneas. mas, estava ventando na janela, que de tão barulhenta lhe chamou a atenção: "melhor trocar de roupa, está ventando". e atrasou uns minutinhos. andou muito rápido até o sinal e esperou. não olhou para os lados. mas ouviu lá longe um automóvel furioso sem vontade de freiar. zapt. um zapt. as pessoas do outro lado lhe faziam sinal, "atravesse!!". ela só queria pensar e nada respondia. tudo podia ter acabado ali. um sussurro: "meu Deus...". e lembrou das crianças. quando a mais velha tinha menos de um ano e falou "mamã" pela primeira vez, era madrugada. muito menina, a mãe limpava o seio que teimava em escorrer leite. sempre o esquerdo, cheio, cheio. ajoelhou-se, mirou os olhos gigantes da garotinha e pediu "repete". - "mamã". talvez fosse só isso que esperasse o tempo todo. toda aquela vigília ao lado do berço, sozinha, com o cabelo amarrado de forma improvisada, jorrando leite em todas as blusas... e nem adiantava doar para bebês sem peito de mãe no hospital de Bento Ferreira - aquilo parecia que ia jorrar para sempre. "mamã". como lhe fez bem. foi sua maior identidade. a garotinha gorda repetia e a mãe chorava, muito cúmplice, muito comovida, muito certa que tudo valia à pena. mesmo dormir sentada. mesmo ouvir seu próprio eco no corredor, quando o marido não absorve qualquer tentativa de diálogo. mesmo que estivesse prisioneira naquele apartamento para sempre. depois do zapt. é isso, um instante apenas. refletiu em poderosos segundos toda sua realidade. o menino, filho caçula, jamais agüentaria ficar sem ela. de todas as mulheres que o cercam, a mãe é uma referência de peso. ela cochicha em seu ouvido "Caso pluvioso", de Drummond. quando o sono não vem, canta alto, depois vai ficando baixinho... ele acompanha o refrão, melodia direitinho: "bate outra vez, a esperança no meu coração, pois já vai terminando o verão, enfim..." lembrou de coisas que não poderia esquecer jamais. "quando foi a última vez que fiz amor?". não sabia dizer. se soubesse que aquela poderia ser a última, teria certeza, teria guardado cada detalhe. mas, sabia qual foi a última pessoa. e sorriu. assim como os cegos, ela o obrigou uma venda nos olhos e o arrepio do toque sem saber o trajeto dos dedos. foi melhor que o gozo em si. foi o mais próximo do amor que teve em seis anos. ou em 26. os sonhos... tantos sonhos nas raras noites em que não tem insônia... descobriu o que tinha visto no pesadelo que teve num hotel de paredes e carpete mofados, lá no distante bairro da Liberdade. "posso vencê-lo. foi só um sonho". muito ajudou passar a dormir do outro lado da cama - mais distante da porta - para exceder os limites das coisas boas, não das ruins. teve um sonho que lhe pareceu um tormento, depois, de certa maneira, engraçado. ela estava em pé, na ponta dos dedos, tentando prender no mural da sala dos fotógrafos - na redação em que trabalha - uma pauta a ser feita. mas, não conseguia porque segurava a toalha em que estava enrolada. apavorada, olhou em volta com medo de que alguém a visse daquele jeito. mas, encontrou uma grande loucura. se aproximou da porta e encarou o cenário: nas baias, cada repórter, editor, revisor, estava diferente. uns com roupa de praia, boné, chinelo, bermuda. outros com pijama, sentados em travesseiro confortável. alguns usavam roupa de baile, suntuosas, magníficas. poucos ainda arriscavam um jeans, mas os que estavam assim assumiam mais personalidade: rasgados, tingidos, velhos ou brilhantes. não eram jeans para trabalhar, sim para viver. atônita, viu aquilo. umas 150 pessoas trabalhando como se não estivessem no trabalho. seu cabelo pingava na toalha, sentia frio. e pensou: "não há mais jeito para a vida pessoal". quando acordou calculou o que aquilo poderia ser, e meditou que o sonho era conseqüência de uma frase ouvida uma noite antes. a filha lhe pediu que chegasse mais cedo do trabalho. "vamos ver, tenho tantas coisas e...". - "mãe, já sei, só se der. você é a rainha do 'se der'". foi isso. é preciso haver espaço para a vida pessoal. Escrito por Dani Costa às 21h58 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] em um instante II (continuação) tanto pensou naquele sinal. achou que poderia sentar ali. mas, atravessou com cautela, as pernas ainda estavam bambas. as pessoas a abraçaram, gente que ela nem conhecia. avistou seu ônibus vindo e embarcou. continuou a pensar. quando deu a última gargalhada? quando riu muito? pensou, "foi no almoço, quando um amigo me contou que foi confundido com retrato falado de um estrupador". riu mais um pouco, mas depois lembrou: "não, foi em casa". foi na noite que fez plantão no trabalho e voltou exausta. estava passando um filme besteirol de terror. ela ria muito, apesar da reluta em assistir aquele ridículo. ele, um carinho da faculdade que ainda perdura, chegou na porta e fez semblante de alívio: "você tá se amarrando, né?". ela sorriu mais. ele voltou para a cozinha e ela se esticou na cama para ver os passos dele. "estou uma chata cansada e ele me agüenta. e ele só quer o meu bem. ele só quer que eu ria". e foi assim. ignorando os solavancos do ônibus, pensou no senhorzinho da clínica de fisioterapia ao lado de seu prédio que puxou papo: "você é graciosa, inteligente. do tipo que não força inteligência". ela ficou muito feliz. porque já estava cheia de gente da raça masculina tentando qualificá-la. o senhorzinho, ao menos, conseguiu uma definição com dois minutos de conversa. "mesmo que me achasse uma ignorante, ainda o veria como um homem decidido". o idoso complementou: "quem quiser tentar que tente. não seja um dicionário ambulante cheia de definições. não fale da vida baseada na teoria dos outros. não diga 'como Kafka, no livro tal...'. diga o que vem de você, das suas percepções, mesmo que já tenha lido tudo. não compare a arte, não defina ninguém. fale o que você vê". "taí", ela pensou. "eu sabia disso e só precisava de alguém para concordar comigo". qual foi o último pranto medonho? essa pergunta teve resposta imediata. talvez não soubesse dizer a razão exata do choro, porque era uma mescla de alívio com alma pecadora. é errado não desejar um filho? aquele que na barriga ainda é só um grão? foi um ano escabroso. um segredo que virou um redemoinho no coração. três dias pensando na vida e à espera de um jeito milagroso, que não dependesse de suas mãos, de suas decisões, de um abraço do homem paulistano que não sabia que poderia ser pai. e milagres acontecem. de noite, a janela aberta e a luz do poste ferindo os olhos. um cochilo, um sonho ruim, um acordar cheio de cólica. a mangueira despencando fruta no telhado do vizinho. se desfazendo, com a ventania, daquelas que ainda não estão maduras. foi natural e certo. hoje, quando vai forrar a cama com lençol, se depara com a marca redonda de sangue no colchão e se arrepia. "foi um milagre". cheio de pranto. o ônibus que dá voltas na Praia do Canto vai se aproximando do ponto. ela desce, meticulosa, assustada. passos miudinhos. qualquer buzina acelera o coração. "mais um medo não é bom". a idéia da morte causa taquicardia. qual medo já foi mais intenso? hum... qual? "volto ao jardim, com a certeza que devo chorar, pois bem sei que não queres voltar, para mim..." esta música jamais sai de sua cabeça. como trilha sonora de uma vida. qual o medo? esforce-se... pense com calma... "queixo-me às rosas, que bobagem, as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam, o perfume que roubam de ti, ah.... devias vir, para ver os meus olhos tristonhos, e quem sabe sonhavas meu sonhos, por fim...". "eu sei". ela lembrou qual foi o medo. era iníco de 2007. entrou com o namorado que tinha na época no apartamento. ele encontrou tudo que ela precisava: um lar perto do trabalho, da escola, do mercadinho. arrumado, com varanda e suíte. ele estava eufórico: "você vai morar aqui com seus filhos". ela ficou incerta... "não posso, é muito caro, tem que ter muito dinheiro...". "pensa então, vê se dá". ela parou no corredor e viu as paredes. os quartos. o da menina, o do menino, o dela. definitivamente dormir no chão da casa da mãe lhe parecia uma idéia cada vez mais deprimente. e obrigar os filhos a isso também. então, concluiu - a solução seria trabalhar até os ossos doerem e passar alguns anos pagando empréstimo consignado. foi assim. a vida é fugaz. e essa frase é brega. nada pode ser considerado definitivo. brigar com quem se gosta. falar palavrão quando as coisas não vão bem. hoje, febril, ela delira algumas questões. das mais estranhas às mais sóbrias. implica com o repouso forçado devido o pedido do corpo em se deitar e melhorar. "antes doente que atropelada". claro, um delírio de quem não vai morrer, mas teme, acima de tudo, deixar a vida. essa que se parar para pensar, tem muitas histórias por dia. apenas é preciso descobrí-las e guardá-las na memória. Escrito por Dani Costa às 21h49 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] a Caixinha de Música (do livro Diário da Menina Rosa)
existe uma caixinha de música dionisíaca existe uma forma de viver dionisíaca a Caixinha surgiu em um ano que ninguém sabe, em uma época que todo mundo viveu, mas nunca houve quem conseguisse possuir a Caixinha, justamente porque ela é dionisíaca e Dionisio não pode ser só de um alguém a magia dela é impagável indefinível, inexplicável todo mundo que a ouve deixa no houve a intransigência da vida estática a que já se entregou da Caixinha saem felicidades, saem melodias furiosas e azuis, saem poesias rosas e estreladas, saem camisinhas, coxas, cinturas, dedos quase sempre pecaminosos dionisicando o momento, a Caixinha revela quem a ouve é impossível não sentir vontade de virar eloqüente e sair nu dançando no vento uma vez saiu da Caixinha um negro músico melodioso que só ele, as mulheres dionisíacas se apaixonaram o negro dançava com seu cabelo embolado, jogando ginga de pele marrom e cheiro de música de flauta para todos os lados disparatado, meu coração fez amor e orgia virou todo o ritual da noite molhada minhas mãos se apertaram no peito do negro e percorreram seu corpo ansiosas e tremidas a Caixinha de Música dionisíaca me fez tremer e abalou toda a estrutura branca que eu achava ser meu corpo, porque depois de dionisicar com a Caixinha naquela orgia, descobri que meu corpo é borboleta que flui no ar, leve e colorida e sente púrpuras que não podem ser humanas, só dionisíacas e por isso eu não tenho corpo tenho borboleta tenho tremedeira que aciono a qualquer momento entrei na disputa de me esfregar na sua pele de lamber seu pescoço e capturar seus arrepios o gozo venceu qualquer pudor e eu molhei o negro e cantei a música da Caixinha ah, a música é sempre diferente ela muda cada vez que é aberta, o som não é desta era, não é deste céu, não é desta terra ele veio de um pensamento que é mistério e custa muito tentar descobri-lo todas as músicas eram um enigma e eu quis a delícia que ela incitava disputei a mão do negro porque queria dançar presa aos seus dedos dionisicamos, eu de borboleta branca e gostosa desmedida de vontade e incontida de respeito, dançava com o cabelo bem armado, caindo em caracol pelo meu peito o negro me apertava e gritava meu sexo eu dançava, fumava cigarro, bebia tonteiras e chupava sua virilha, tudo ao mesmo tempo fadas perfumadas jogavam vinho na minha pele e cantavam palavras difíceis de poemas inventados minuto a minuto fodas ritmadas gemiam por todos os cantos e eu ria alto, toda gargalhada a Caixinha de Música Dionisíaca ameaçava acabar a corda e eu chorava já sentindo saudade do negro dionisíaco existe uma caixinha de música dionisíaca e Dionísio é festa, é farra, não é de ninguém da Caixinha saem amores admitidos que rebolam fazendo beicinho eu, vitimada e contente, beijava os braços e pernas desse amor dionisíaco existe uma caixinha de música dionisíaca e dela saem histórias cheias de palavrões, de nenhum limite, de perversões, de corpo imprensado na parede por outro acalorado existe uma caixinha de música dionisíaca e dela saem uvas roxas, frescas de natureza e doces de desejos carnais e eu mordo muitas impressionada com o seu prazer doce
com tudo, descobri que posso ser dionisíaca que posso ser perversa e gozar meus sentidos a Caixinha anda sozinha pelo mundo e agora deve antentar humanos noturnos, e agora deve circular por tempos sem hora e sem maldades sinto saudade da Caixinha de Música Dionisíaca que carrega consigo o negro dionisíaco que tatuou em mim a essência de ser feliz.
Escrito por Dani Costa às 12h12 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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