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Por Dani Costa as cabeças
(dos escritos de Cartas Secretas Jogadas pela Janela - sempre em produção)
bonito demais aquele jeito dele lá fora. na rua, fingindo que não está me vendo. impossível não me ver. quando solto meu cabelo, ele sempre me vê. e seus lábios tremidos entregam o que se passa naquela cabeça. naquelas cabeças...
quando ele acende um cigarro atrás do outro, sem trégua, eu já sei: lhe virei do avesso só de ficar aqui, parada. eu vejo, é assim, o sexo sempre falará mais alto, apesar dele não perder a chance de tentar conhecer minha poesia. é decente isso. talvez, a anti-romântica seja eu. a louca que busca o amor no papel e cospe nele quando se aproxima...
você precisa me avisar quando eu for exageradamente uma pessoa fria. que não sabe amanhecer com alguém. você precisa me avisar quando devo parar de ser aquilo que me faz ruim. alguém que se tem preguiça de amar. você precisa dar um berro, me sacudir, jogar-me na cara o quanto boicoto exatamente todos os envolvimentos que me surgem.
sou mesmo perversa. confessei àquele que me olha agora meus planos de parede e colchão. apenas. ele foi embora. ah, esse menino, esse velho, esse pênis que preciso às vezes... ele nem sabe que arquivei os seus prazeres particulares na parte mais completa de meu cérebro. lá, tenho devoções nunca sequer sussurradas. ele se surpreenderia com a atenção que mantive nas nossas horas. até mesmo eu me surpreenderia, se tivesse que contá-las...
amigo, é madrugada e eu a botecar mais uma vez no sereno. faço isso por prazer claro, mas essa boemia toda é necessária. preciso circular pela civilização... nossa. hoje não estou falando nada com nada. ele continua me olhando. Se eu sorrir ele fraqueja. Se eu levantar e for embora ele terá certeza: sou um boicote. um macho. um par ao contrário. ele saberá para sempre: essa é uma mulher de poucas alegrias. essa é uma mulher de nenhum amor. essa é uma mulher que não precisa de ninguém.
não há problema que ele descubra isso. essa sensação da vigília dele na minha cabeça baixa escrevendo, com meu copo de espuma aqui do lado traz um prazer quase orgástico. isso basta. gosto desta atenção. e não me importa que ele me descubra. a verdade é sempre preferível. meu efeito fêmeo de traduzir os gestos dele em relação a mim extrapola o sentido real das coisas. é uma cadeia ininterrupta de códigos e segundos eternos no meu tempo. gosto desta atenção.
mas, ele não é o protagonista dos dias de agora. não. a minha feminilidade não é gritante ao lado dele. é isso, sei agora. não tivemos uma história fabulosa. apenas nos entendemos com as cabeças. as duas dele. confesso, uma mais importante que a outra. e de fato, ele falava, eu via sua boca mexendo, ficava refletindo que ele é lindo, é simples, de uma simplicidade que possui toda uma exuberânia e marca. ele falava, sua boca mexia muito, mas só fui entender quem ele era, o que fazia, de que forma sonhava, quando o vi passar no corredor, sorrateiro, e sumir para sempre do vazio do meu quarto. eu jamais o ouvi. um lamento.
meu amigo distante. meu amigo que aprendo a amar todos os dias. não me julgue. não me entenda. o que faço - ou não - é uma maneira mais garantida de proteger meu coração de machucados sem cura. de idéias sem contestação. de caminhos sem volta. da dureza dos tormentos.
pensei muito em você por esses dias. pensei em uma idéia colorida num muro. pensei que escrever para ti tem um símbolo, um contorno, um afago, uma admiração. amo escrever para ti como se ama as flores do maracujá subindo pelas bases... é como um canto em súplica, um choro, um mimo, um definho de minha voz. e vai subindo, partindo, dizendo adeus, aquele que odeio dizer nas cartas - e por isso não digo - jamais me despedirei de você. não nas minhas cartas.
pensei muito, tantas coisas. mas, esse muro que existe entre nós é provisório. e podemos dividir as ramas e flores que trepam de um lado e migram para outro - como nossa escrita - e saiba, estou sendo sincera - nada me edificaria mais que conhecer tuas cabeças. mais aquela da boca que mexe, com certeza. porque você é diferente. porque por você tomo um banho de madureza - chuva sem tamanho, mil virtudes - não guardo nenhum segredo, e lanço a história mais honesta que existe dentro de mim. amigo, que saudade de quando te vi. que saudade das poucas frases que trocamos. que estranho não conhecer você.
Escrito por Dani Costa às 18h11 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] presente outro dia encontrei em um criado mudo do meu quarto uma foto amarelada. é de um castelo bonito, num clima frio - mas não muito. as pessoas da foto, de costas ou de lado, usam roupas da década de 1970. eu nasci em 1981 e nunca fui a uma castelo. pensei nisso por dias. até que uma noite sonhei: fui a um sebo duas semanas antes, comprei vários livros... a foto deve ter vindo num deles. e ela se guardou no criado. um castelo. que considerei bem bonito. como herança de alguém que não conheço. Escrito por Dani Costa às 13h09 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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