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Por Dani Costa



às vezes, sempre

que saco de vida. era esse seu pensamento. a rotina já não era tão bendita. o mormaço na varanda na sétima hora do dia. o café com duas colheres bem cheias de açúcar. uma colher mais minguada de leite em pó. toda manhã. o pote de açúcar fica bem no alto. que saco de vida. "posso mudá-lo de lugar, mas não quero".

quantos passos levam até o trabalho? uma reta só é o suficiente. são oito minutos. todos os dias. mais dez para voltar, ou quinze, porque o cansaço é maior. às vezes é menos tedioso sentar diante do computador, sempre é duvidoso. às vezes, sempre.

os relatórios. as reuniões. aquele bocejo que contaminou todo mundo no meio da tarde. que saco de vida. mormente, uma palavra nova. morrinhento, uma palavra feia. mormente porque lembra que a vida é um saco.

a volta à noite, às vezes, é menos fúnebre. com alguma sorte, a rotina se estilhaça no sereno. um filme melhorzinho na HBO, um trecho do livro que excita, o pão francês pode não estar tão duro. "ao menos não durmo com fome". tinha promoção da companhia aérea. ir pras cucuias deve ser divertido.

o telefone não toca. nunca mais tocou. por uns tempos ele foi algo monitório - palavra esquecida - mas agora é morto - um mortolóide. que saco de vida. nos fins de semana a mesma reta. o mesmo trabalho. durante as horas de labuta, se for na rua, é bom. conhece muita gente, vive muita coisa, vive a vida dos outros. e resgata algum compromisso com a própria vida. às vezes é assim. sempre também. 

no mais, as contas estão em cima da mesa. falta filtro para cafeteira. a rotina será quebrada porque não haverá café no mormaço da varanda.

às vezes toma uma cerveja. às vezes beija na boca. às vezes usa um vestido.

sempre é assim.   



Escrito por Dani Costa às 11h23
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